(Source: deposito-de-tirinhas)
Tônio Kroeger - Thomas Mann
” Fabiano dava-se bem com a ignorância. Tinha o direito de saber? Tinha? Não tinha.
- Está aí.
Se aprendesse qualquer coisa, necessitaria saber mais, e nunca ficaria satisfeito.”
Vidas secas - Graciliano Ramos
arrepios:
um amor que faça suco de limão.
rede e piscina.
céu estrelado, brincar de roda e violão.
Rosa da formosura, Anarda bela
igualmente se ostenta como a rosa;
Anarda mais que as flores é formosa,
mais formosa que as flores brilha aquela.
A rosa com espinhos se desvela,
arma-se Anarda espinhos de impiedosa;
na fronte Anarda tem púrpura airosa,
a rosa é dos jardins purpúrea estrela.
Brota o carmim da rosa doce alento,
respira olor de Anarda o carmim breve,
ambas dos olhos são contentamento:
mas esta diferença Anarda teve:
que a rosa deve ao sol seu luzimento,
o sol seu luzimento a Anarda deve.
Manuel Botelho
Rei Lear - William Shakespeare
Foi na aula de gramática que Osmar descobriu que seu nome era um erro de concordância nominal. Foi no litoral que livrou-se do S, livrou-se da gramática, livrou-se da roupa e do nome. Virou o mar. Libertou-se.
Isso é tão ridículo e infantil, mas ele não sabia melhor maneira de se expressar. Por que ele? Não sei, pouca diferença faria se fosse ela, mas ele prefere que seja ele.
— Como vai?
E se você tiver milhões de coisas pra fazer e não tiver vontade de fazer nada? É mais crível que se chame isso de preguiça, mas ele não sabia se era isso, apenas sentia.
Como eu vou… Eu não vou, logo não sei como. Quer não ir também? Vamos não fazer nada juntos.
— Bem.
Que sensação terrível. De não pertencer ao mundo, de não fazer parte da ordem das pessoas, de ser algo melhor, ou infinitamente pior. Nem isso ele sabia definir. As palavras iam deixando de fazer sentido, as coisas perdiam importância. Ele lembrou de algo que uma amiga dissera, as melhores coisas da vida não são as coisas. Mas ele já não sabia o que era a vida.
Acho que a única coisa que ele sabia era a razão de sentir assim. Quanta babaquice, é por isso? No fundo a razão não importa, hem, ele sabe que é tolice, que não faz o mínimo sentido. Mas aconteceu, e então? Um disparo para o coração. Ele adora brincar com os furos do acordo ortográfico. O que é o contexto, afinal?
— Está chovendo, amor.
— E parece que não vai parar tão cedo.
— Tomara que me lave.
— Qual a alma que não precisa de um banho?
— Tira essa roupa, vamos nos molhar.
— Está chovendo amor.
— Faltou uma vírgula.
— Não faltou, não.
Conrado Miguel
arolling-stone:
“Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…
E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…”

A Flor e a Náusea
[Carlos Drummond de Andrade]
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
SOBRE OS VÉUS DAS NINFAS
(Réfléchissons… pour Mallarmé)
Passo por sua noite
como sombra
que nem se esconde
nem se dá a ver
seu olho negro-ébril
busca roubar a luz
de um desejo
sem nome ou data
transbordo-lhe esse amor que é meu…
de tão meu que não lhe dou:
nem minha serenidade crestada
ao sol de cada grito,
nem meu frio verniz de donzela
enganam o seu faro —
fauno de l’après-minuit.
adorável noite
dobrada ao meio.
sem lua
sem sonho ou sombras
Olga Valeska
Valsinha
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar, olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar. E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar. E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar.
E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar. Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar, cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar. E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou e foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou. Foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais, que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz.
Chico Buarque
(Source: deposito-de-tirinhas)
Todos os dias, ele ia para o colégio com meias vermelhas.Era um garoto triste, procurava estudar muito mas na hora do recreio ficava afastado dos colegas, como se estivesse procurando alguma coisa. Os outros guris zombavam dele, implicavam com as meias vermelhas que ele usava.
Um dia, perguntaram porque o menino das meias vermelhas só usava meias vermelhas.
Ele contou com simplicidade:
- No ano passado, quando fiz aniversário, minha mãe me levou ao circo. Botou em mim essas meias vermelhas. Eu reclamei, comecei a chorar, disse que todo mundo ia zombar de mim por causa das meias vermelhas. Mas ela disse que se me perdesse, bastaria olhar para o chão e quando visse um menino de meias vermelhas saberia que o filho era dela.
Os garotos retrucaram:
- Você não está num circo! Porque não tira essas meias vermelhas e joga fora?
Mas o menino das meias vermelhas explicou:
- É que a minha mãe abandonou a nossa casa e foi embora. Por isso eu continuo usando essas meias vermelhas. Quando ela passar por mim vai me encontrar e me levará com ela.
(O MENINO DAS MEIAS VERMELHAS - Carlos Heitor Cony)